Em 1958, enquanto o Brasil celebrava vitórias esportivas e culturais, como a Copa do Mundo com Pelé e Garrincha, Juscelino Kubitschek personificava uma era de otimismo e modernidade. A anedota do granizo caindo no Catetinho, atendendo à necessidade de gelo para o uísque de JK, simboliza não apenas um capricho da natureza, mas o espírito harmonioso daqueles tempos. Era o crepúsculo da “Belle Époque” tropical, marcada pela Bossa Nova de João Gilberto, o Cinema Novo e o florescimento do modernismo arquitetônico. Nesse contexto, JK emergia como um líder visionário, integrando arte e política para impulsionar o desenvolvimentismo, uma abordagem que, em minha visão, representava o auge da democracia efervescente, capaz de unir elites culturais e o povo em projetos grandiosos como a construção de Brasília.
O modernismo brasileiro, delineado por eventos como a Semana de Arte Moderna de 1922 e o Salão Revolucionário de 1931, encontrou em JK um catalisador decisivo. Como prefeito de Belo Horizonte em 1940, ele idealizou o Conjunto Arquitetônico da Pampulha, colaborando com Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e artistas como Cândido Portinari e Roberto Burle Marx. Essa iniciativa não foi mero capricho estético, mas uma declaração política de vanguarda, rompendo com o ecletismo para abraçar formas arrojadas inspiradas em Le Corbusier. A Exposição de Arte Moderna de 1944, organizada por JK, reuniu intelectuais como Jorge Amado, Oswald de Andrade e Anita Malfatti, ampliando o debate modernista para além do eixo Rio-São Paulo. Opino que essa integração de arquitetura, escultura e pintura na Pampulha foi o laboratório perfeito para Brasília, onde o conceito de “obra de arte total” se consolidou, refletindo a ambição de JK por um Brasil progressista e inclusivo.
Em Brasília, inaugurada em 1960, essa visão se materializou na fusão de urbanismo e arte, com contribuições marcantes de Athos Bulcão, Burle Marx, Alfredo Ceschiatti e Bruno Giorgi. Obras icônicas, como Os Candangos na Praça dos Três Poderes ou os jardins do Itamaraty, não só embelezam a capital, mas simbolizam os laços diplomáticos e sociais almejados por JK. Destaco, com justiça, o trabalho de Marianne Peretti, a única mulher na equipe de Niemeyer, cujos vitrais na Catedral e no Panteão da Pátria conferem leveza e grandeza à cidade. Em um tom opinativo, creio que o legado de JK no modernismo transcende a estética, servindo como lição política: o progresso nacional depende da ousadia em unir cultura e governança, uma fórmula que, infelizmente, parece esquecida em tempos mais polarizados.