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O legado sombrio da ditadura: o assassinato de Mário Eugênio e a impunidade que persiste

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No auge da ditadura militar brasileira, em 1984, o jornalista Mário Eugênio Rafael de Oliveira pagou com a vida por sua coragem em denunciar um grupo de extermínio formado por policiais civis e militares do Exército. Apresentador do programa “O gogó das sete” e editor no Correio Braziliense, ele expôs o envolvimento desses agentes na morte de um dono de chácara em Luziânia, no Entorno do DF. Executado no estacionamento da Rádio Planalto, na Asa Sul, com uma facada na nuca e tiros de espingarda calibre 12 e revólver magnum calibre 381, Mário se tornou símbolo da repressão que silenciava vozes críticas. Seu bordão, “Aqui só se fala a verdade, somente a verdade. Doa a quem doer”, ecoa como um lembrete amargo de que, em regimes autoritários, a verdade pode ser fatal, e a impunidade dos poderosos perpetua cicatrizes na democracia.

Entre os mandantes condenados, figuram nomes como o coronel Lauro Melchiades Rieth, então secretário de Segurança Pública do DF, e o delegado Ary Sardella, da Polícia Civil do DF. Rieth, que desafiou Mário a publicar sobre o “esquadrão da morte” e confirmou a participação de militares, viu seu processo arquivado após habeas corpus. Sardella, hoje com 88 anos, não só evitou maiores consequências como construiu uma carreira pós-aposentadoria como instrutor de tiro e faixa coral em jiu-jitsu, sendo exaltado em publicações sindicais como “o mestre do tiro”. Outros envolvidos, como o sargento Antônio Nazareno Mortari Vieira e os cabos David Antônio do Couto e Aurelino Silvino de Oliveira, do Exército, receberam penas mínimas ou responderam em liberdade. Divino José de Matos, conhecido como Divino 45 e executor dos disparos, cumpriu pena e hoje recebe aposentadoria de R$ 4,7 mil mensais. Essa rede de proteção judicial reflete uma opinião incômoda: a ditadura não só matou, mas garantiu que seus agentes prosperassem às custas do erário público.

Atualmente, pensões e remunerações pagas pela União e pelo DF a esses envolvidos somam mais de R$ 70 mil mensais, incluindo R$ 35 mil para a filha de Rieth e R$ 30 mil para Sardella. Durante a ditadura, 25 jornalistas foram mortos ou desaparecidos, e centenas perseguidos, o que sublinha a urgência de revisitar esses casos para fortalecer a accountability política. Em um país que ainda lida com ecos autoritários, ignorar essa impunidade é arriscar repetir erros do passado, onde o Estado, em vez de proteger, pune quem ousa falar a verdade.

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