A proliferação de fiação aérea em áreas centrais do Plano Piloto de Brasília tem gerado críticas de moradores e especialistas, reacendendo discussões políticas sobre a preservação urbanística da capital. Tombada como Patrimônio Cultural da Humanidade, a região foi projetada para priorizar cabos subterrâneos, conforme o Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCUB), regulamentado no fim de 2024. No entanto, observações em locais como o Setor Hoteleiro, W3 Norte, Trevo de Triagem Norte, acessos ao Lago Paranoá e Sudoeste revelam emaranhados de fios que contrariam as normas, afetando a estética visual e a segurança, especialmente durante as chuvas. O advogado Antônio Martins, morador do Lago Norte, destaca que essa situação compromete a “limpeza visual” característica de Brasília, enquanto o urbanista José Leme Galvão, aposentado do Iphan, enfatiza a importância de manter a paisagem urbana intacta para preservar o patrimônio cultural.
De acordo com o PPCUB, a instalação de redes aéreas é proibida em áreas como o Eixo Monumental, superquadras, orla do Lago Paranoá, setores de embaixadas e W3 Norte e Sul. Redes existentes em desacordo devem ser substituídas por subterrâneas em até dois anos, possivelmente via parcerias público-privadas. Moradores como o servidor público Daniel Rezende, do Cruzeiro e Sudoeste, relatam transtornos com interrupções frequentes de energia causadas por ventos e galhos que atingem os cabos, com pelo menos oito ocorrências nas últimas semanas. Já o administrador João Brito, da Asa Norte, percebeu um “abandono de critérios históricos” ao retornar à cidade, criticando a presença de fios desde o aeroporto até o centro.
Órgãos responsáveis apresentam posicionamentos variados sobre o tema. A Companhia Energética de Brasília (CEB) afirma que seus postes de iluminação pública utilizam cabos subterrâneos no centro e em outras regiões. A Neoenergia Brasília, responsável pela distribuição de energia, informa que 9% dos clientes no DF são atendidos por rede subterrânea, com 74% concentrados no Plano Piloto, e atribui a definição de modelos de rede à Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Seduh/DF). A concessionária destaca ações como a remoção de seis toneladas de fiação clandestina desde agosto em diversas regiões e aponta furtos de cabos como principal causa de interrupções, intensificando medidas de segurança. A Seduh reforça a proibição em áreas tombadas, mas delega projetos e adequações às concessionárias, o que evidencia lacunas na coordenação política para o cumprimento das normas patrimoniais.