A aprovação do Projeto de Lei Antifacção pela Câmara dos Deputados, com um placar expressivo de 370 votos a favor e 110 contra, marca um momento pivotal na luta contra as facções criminosas no Brasil. Em seu discurso, o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), enfatizou que essa não é uma vitória partidária, mas uma resposta unificada do país à escalada da violência. De fato, após seis versões e intensas negociações com governadores e lideranças, o texto surge como um instrumento essencial para restaurar a autoridade estatal, embora reste questionar se sua implementação será tão robusta quanto o discurso sugere, dada a complexidade federativa do país.
O relator, Guilherme Derrite (PP-SP), realizou ajustes cruciais para equilibrar competências, mantendo o protagonismo da Polícia Federal em operações integradas, mas exigindo comunicação com autoridades estaduais para evitar conflitos. O cerne da proposta cria um arcabouço nacional de combate ao crime organizado, com ferramentas de inteligência, bloqueio patrimonial e intervenção em empresas usadas para lavagem de dinheiro. Tipificações penais foram aprimoradas, abrangendo domínio territorial, sabotagem de serviços públicos e o “novo cangaço”, com penas que variam de 20 a 40 anos, podendo chegar a 66 para líderes de facções. Essa estrutura, opinativamente, representa um avanço no fortalecimento da execução penal, como o envio de chefes para presídios federais de segurança máxima e restrições a benefícios como o auxílio-reclusão, mas sua eficácia dependerá de uma aplicação rigorosa para não se tornar mera retórica.
Medidas adicionais visam agilizar processos, como audiências de custódia por videoconferência e julgamentos em Varas Criminais Colegiadas para homicídios ligados a organizações criminosas, evitando o Tribunal do Júri. O texto também institui o Banco Nacional de Membros de Organizações Criminosas Ultraviolentas e ações civis imprescritíveis para perdimento de bens, com destinação para fundos de segurança. Notavelmente, uma emenda sobre equiparar traficantes a terroristas foi barrada, apesar do clamor da bancada do PL, liderada por Sóstenes Cavalcante (RJ), que defendeu a medida como um anseio social. Essa omissão, embora evite politização, pode ser vista como uma oportunidade perdida para endurecer ainda mais o combate, destacando as tensões entre ambições ideológicas e consensos práticos na política brasileira.