Em um momento em que as políticas ambientais no Brasil enfrentam constantes desafios, a devolução de um lobo-guará à natureza na Área de Proteção Ambiental (APA) Gama Cabeça de Veado, nesta sexta-feira (7/11), representa um raro exemplo de sucesso na conservação da fauna silvestre. Resgatado em 29 de setembro pela Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) na Rua Jacarandá, na Ponte Alta do Gama, o animal adulto foi encontrado acuado e estressado, com riscos tanto para si quanto para a comunidade local. O Batalhão de Polícia Militar Ambiental (BPMA) realizou a captura, e o lobo foi encaminhado ao Hospital e Centro de Reabilitação de Fauna Silvestre (Hfaus), do Instituto Brasília Ambiental, onde pesava 24 quilos e apresentava sangramento oral e inconsciência leve. Esse episódio destaca como intervenções estatais, quando bem coordenadas, podem mitigar os impactos da urbanização sobre espécies nativas, reforçando a necessidade de investimentos públicos em reabilitação animal.
O tratamento no Hfaus envolveu exames que confirmaram a doença do carrapato, levando a um protocolo contra a erliquiose e uma cirurgia periodontal para reparar uma fratura de dente, realizada pela equipe da OdontoZoo. Apesar de ser uma zoonose comum em cães domésticos ou de rua, o caso ilustra os riscos de interações entre vida selvagem e ambientes urbanos, possivelmente agravados por falhas em políticas de controle populacional de animais errantes. A reintrodução contou com uma equipe técnica integrada pelo Brasília Ambiental, Hfaus e Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), seguindo etapas criteriosas de resgate, tratamento veterinário, reabilitação comportamental e escolha de local seguro. Na minha visão, essa operação não apenas salvou um indivíduo, mas simboliza o potencial de políticas ambientais proativas, que poderiam ser ampliadas para combater o declínio de espécies como o lobo-guará, ameaçado pela expansão humana.
Embora o tom otimista dessa soltura seja bem-vindo, ele não mascara a urgência de reformas políticas mais amplas para proteger áreas como a APA Gama Cabeça de Veado de pressões como o desmatamento e a poluição. Casos como esse, onde um animal é resgatado de uma rua sem saída e devolvido à natureza após cuidados intensivos, servem como lembrete de que a conservação não é mero luxo, mas uma obrigação governamental. Se o Distrito Federal pode orquestrar tal esforço com eficiência, por que não expandir esses modelos nacionalmente? Essa reflexão opinativa sublinha que, sem ações concretas, sucessos isolados como esse podem se tornar raros em um cenário de degradação ambiental acelerada.